
É comum que alguém, ao tentar entender sobre investimentos, se sinta perdido em meio a tantas siglas como CDI, IPCA, Selic e prefixado. A boa notícia, no entanto, é que existe um caminho simples, seguro e acessível para começar. Esse caminho se chama Tesouro Direto.
Criado em 2002 pelo Tesouro Nacional em parceria com a B3, esse programa representou uma verdadeira revolução no mercado financeiro brasileiro. Antes desse período, comprar títulos públicos era uma atividade restrita a grandes bancos e a investidores com muito dinheiro. Hoje em dia, qualquer pessoa com um CPF e alguns poucos reais pode emprestar dinheiro ao governo e receber por isso.
O cenário econômico, porém, muda com rapidez. A taxa Selic sobe e desce, a inflação dá seus saltos, e o governo eventualmente lança novas regras. Um guia escrito há dois anos já pode estar desatualizado. Pensando nisso, organizei tudo o que você precisa saber agora, em 2026, para investir em Tesouro Direto com segurança e sem cair em achismos.
O que é o Tesouro Direto, afinal?
Imagine a seguinte situação: o governo precisa de dinheiro para construir uma estrada, pagar aposentadorias ou investir em saúde. Em vez de imprimir moeda — o que geraria inflação — ele emite títulos. É como se o governo assinasse um contrato de promessa de pagamento com você.
Você compra um título por um determinado valor. O governo, por sua vez, se compromete a pagar de volta no futuro, acrescido de juros. Essa é a lógica fundamental.
A diferença entre o Tesouro Direto e outros investimentos de renda fixa, como CDBs ou LCIs, é que aqui o emissor é o governo federal. E o governo federal, no Brasil, é considerado o devedor mais confiável que existe. Por essa razão, dizemos que o Tesouro Direto tem risco de crédito praticamente zero. Se o governo quebrar, o país teria problemas muito maiores do que o seu investimento individual.
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Os tipos de títulos disponíveis hoje (e qual escolher)
Muita gente desiste antes mesmo de começar, pois acredita que precisa escolher o título “certo”. A verdade, contudo, é que não existe um título melhor ou pior de forma absoluta. Existe, isso sim, o título mais adequado para o seu objetivo e para o seu prazo. Atualmente, o Tesouro Direto oferece basicamente três famílias de produtos.
Tesouro Selic: o mais indicado para a reserva de emergência
Esse título não tem taxa fixa, ele acompanha a taxa Selic, que é a taxa básica de juros da economia definida pelo Banco Central. O governo define a Selic. Ela sobe para controlar a inflação. Desce para estimular a economia. O Tesouro Selic acompanha a Selic diária, descontada a taxa de custódia.
A vantagem principal do Tesouro Selic é que ele praticamente não oscila. O investidor pode precisar do dinheiro amanhã, vender, e dificilmente terá prejuízo nominal. É o mais próximo de um investimento “sem sustos” que existe no Tesouro Direto.
Por outro lado, embora o Tesouro Selic ofereça segurança para resgates antecipados, essa segurança não é absoluta. Isso porque, em momentos de estresse extremo nos mercados financeiros, o Tesouro Nacional pode suspender temporariamente as recompras.
Isso ocorreu de forma pontual em março de 2020, no auge da pandemia. Tratou-se de uma pausa operacional temporária, e não de uma suspensão geral e definitiva. É importante que o investidor tenha ciência dessa possibilidade, ainda que remota.
A rentabilidade do Tesouro Selic varia conforme a Selic varia. Se a Selic está em 13,75% ao ano, o título rende isso. Se a Selic cair para 8%, o rendimento cai também. Dessa forma, o investidor tem segurança de não perder dinheiro nominalmente, mas não tem garantia de rendimento alto para sempre.
Os vencimentos atualmente disponíveis incluem 2026, 2028 e 2030. Na prática, o vencimento não é tão relevante porque o investidor pode vender quando quiser. Mas o prazo final existe.
Tesouro Prefixado: para quem gosta de saber exatamente o que vai receber
Esses títulos têm uma taxa de juros fixa, definida no momento da compra. Se o investidor compra um prefixado com taxa de 12% ao ano com vencimento em 2031, ele sabe exatamente quanto vai receber em 2031 — desde que leve o título até lá.
O rendimento vem dos juros contratados. Se o investidor espera até o vencimento, o dinheiro cresce conforme o combinado. Por outro lado, se ele precisa vender antes do prazo, o valor que vai receber depende de como estão as taxas de juros naquele dia.
Alguns títulos prefixados vencem em poucos anos (2026, 2027). Outros vencem em prazos mais longos (2031, 2033, 2035). Portanto, um título com vencimento em 2026 é naturalmente menos arriscado para quem não quer segurar por muito tempo do que um título com vencimento em 2035.
Se as taxas de juros subirem depois que o investidor comprou, o título velho perde valor de mercado. Quem precisa vender nesse momento toma prejuízo. Quem pode esperar até o vencimento, recebe o combinado originalmente.
Ademais, os títulos prefixados não têm proteção contra inflação. Se a inflação subir muito, o ganho real (o poder de compra) pode ser menor que o esperado.
Tesouro IPCA+: a proteção contra a inflação
Já esse grupo é o dos títulos atrelados à inflação. Esses títulos pagam a inflação oficial (IPCA) mais uma taxa fixa. Por exemplo: IPCA + 6,5% ao ano.
Se a inflação foi de 5% no ano, o título rende 11,5% – se a inflação foi de 10%, rende 16,5%. Se a inflação disparar para 20%, rende 26,5%. A vantagem é que o poder de compra do investidor está protegido.
A desvantagem é a volatilidade. Os títulos IPCA+ oscilam muito no curto prazo. Mais do que os prefixados, inclusive. Quando os juros reais (juros nominais descontada a inflação) sobem, o preço do IPCA+ cai. Quando os juros reais caem, o preço sobe.
Um ponto que pega muitos iniciantes de surpresa é exatamente essa oscilação. A pessoa compra um IPCA+ achando que é seguro porque tem inflação, aí abre o aplicativo no dia seguinte e vê o saldo 3% menor. Não entende nada. Vende no desespero. Perde dinheiro. Jura que Tesouro Direto é furada.
Cuidado. Quem leva o título até o vencimento, essas oscilações não importam. O problema é que levar até o vencimento pode significar esperar 10, 15, 20 ou 30 anos. É dinheiro que não pode ser mexido.
Tesouro Educa+ e Tesouro Renda+
Além dos três tipos principais, existem outros dois títulos. O Tesouro Educa+ é um IPCA+ que, em vez de pagar tudo no vencimento, paga parcelas mensais durante cinco anos. Foi criado para quem quer financiar despesas educacionais, como a faculdade dos filhos.
O Tesouro Renda+ segue a mesma lógica, mas para aposentadoria: o investidor escolhe a data de início do recebimento e passa a receber parcelas mensais corrigidas pela inflação por vinte anos.
A conveniência é que eles organizam o fluxo de pagamento. O ponto negativo é que são menos líquidos. Se o investidor precisar de tudo de uma vez antes do prazo, pode ter dor de cabeça. Para iniciantes, a recomendação é começar pelo Tesouro Selic antes de pensar nesses títulos.
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Como investir passo a passo
Depois de escolher qual título faz mais sentido para o seu caso, é hora de colocar a mão na massa.
Escolher uma corretora
O Tesouro Direto não é um banco, então você precisa de uma corretora ou de um banco que tenha autorização pra fazer a intermediação. As mais conhecidas hoje — XP, Rico, Clear, BTG, Nubank, Inter — tão oferecendo acesso de graça ou com taxas bem baixas. Minha dica é fugir dos bancões tradicionais. Eles ainda cobram 0,5% ao ano de custódia, e isso vai comer um pedaço do que você ganha.
Dá uma olhada nas taxas de administração também. Algumas corretoras já zeraram isso de vez. O governo já cobra 0,20% ao ano de custódia, que é descontado direto do título. Esse você não escapa. Qualquer coisa acima disso é a corretora embolsando.
Abrir a conta
É tudo digital, leva uns quinze minutos. Você vai enviar CPF, RG, comprovante de residência e um selfie com o documento. A corretora vai te pedir pra responder aquele questionário de perfil — quer saber se você é conservador ou agressivo. Não minta nisso. É pra te proteger.
Transferir o dinheiro
Deposita o valor que você quer investir. Não existe um mínimo oficial, mas os títulos têm preço. O bom é que você compra frações. Um título que custa R$ 1.000 inteiro, você compra com R$ 30. Na real, o mínimo são centavos. Mas para valer a pena, começa com uns R$ 100.
Escolher o título
No sistema da corretora ou no portal do Tesouro Direto, aparece uma lista com todos os títulos disponíveis. Cada um com seu preço, sua taxa e a data de vencimento. É só escolher o que faz mais sentido para o que você quer.
Comprar e acompanhar
Clica em comprar, confirma e pronto. O título vai aparecer na sua carteira. Dali em diante, você pode ver a rentabilidade todo dia se quiser — mas se você for ansioso, nem faz isso. Renda fixa não é renda variável. Dar uma olhada uma vez por mês já resolve.
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Marcação a mercado: o vilão que todo mundo teme
Vamos encarar esse assunto de frente. Marcação a mercado é um conceito simples: o preço do seu título varia antes do vencimento porque novas taxas de juros surgem no mercado.
Um exemplo prático ajuda a entender. Suponha que você comprou um título prefixado a 10% ao ano. No mês seguinte, o governo lança um título novo pagando 12%. O seu título antigo perde valor, pois qualquer investidor racional preferiria o novo. Se você precisar vender o seu agora, terá que oferecer um desconto.
Aqui vem o ponto crucial. Se você segurar o título até o vencimento, receberá os 10% combinados. O preço intermediário não importa. É como comprar um apartamento na planta. Se o mercado imobiliário cair, seu apartamento vale menos no papel. Contudo, se você não vender, continua com o mesmo imóvel e receberá o valor contratado na entrega das chaves.
O Tesouro Selic quase não sofre marcação a mercado porque ele é pós-fixado. Já o prefixado e o IPCA+ podem oscilar bastante. Portanto, a dica de ouro é: não invista nesses títulos com dinheiro que você pode precisar antes do vencimento. Planeje-se com antecedência.
O que mudou nos últimos anos
Se você já leu guias antigos, vale a pena observar estas mudanças importantes. Primeiramente, houve o fim da taxa de corretagem padrão. Até 2022, muitas corretoras cobravam uma taxa por ordem de compra. Hoje, a maioria zerou esse custo. O governo também reduziu a taxa de custódia de 0,30% para 0,20%.
Em segundo lugar, o limite de investimento foi elevado. Antes, o Tesouro Direto tinha um limite de R$ 1 milhão por CPF. Agora, esse limite é de R$ 5 milhões. Para 99,9% dos investidores, isso não faz diferença prática.
Além disso, o resgate automático no vencimento é uma realidade. Hoje, o valor do título vencido cai automaticamente na sua conta corrente em D+1 (um dia útil). Antes, era necessário pedir o resgate manualmente.
O aplicativo do Tesouro Direto também foi reformulado e está bem melhor. Agora é possível comprar, resgatar e acompanhar tudo pelo celular, sem precisar acessar o site.
Por fim, o Tesouro lançou títulos sustentáveis, os chamados green bonds, atrelados a compromissos ambientais. A rentabilidade é similar à do IPCA+, mas o dinheiro captado vai para projetos ecológicos. Trata-se de uma escolha de consciência, não de retorno financeiro.

Vale a pena investir no Tesouro Direto em 2026?
A resposta depende do seu objetivo, para investidores que buscam segurança e previsibilidade, desde que compreendidos os riscos envolvidos: marcação a mercado, taxa de custódia de 0,20% ao ano (com exceções variáveis conforme políticas do Tesouro), tributação regressiva e as características operacionais da recompra diária — que não constitui um direito garantido a preço fixo.
Recomenda-se, para iniciantes, começar com o Tesouro Selic com vencimento mais curto para formação de reserva de emergência. Em seguida, estudar os títulos IPCA+ para prazos mais longos, avaliando o próprio perfil de risco. Por fim, diversificar entre diferentes vencimentos e indexadores, sem concentrar todo o patrimônio em um único título.
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